Há pessoas que são
              “Lagos-de-Narcisos”.





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“Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que ele era belo. Choro por ele porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida”


"Dizia ainda o lago: Eu preciso de Narciso, para servir de espelho à sua beleza. Sinto-me belo nele e em razão dele. A minha utilidade é doar a minha "superfície" a ele. No fundo, contento-me em ver um pouco de mim, ainda que superficialmente, refletido em seu olhar. Preciso dos olhos de Narciso, tal como ele precisa de meu leito."

                                                             Livre adaptação da parábola "O Lago e Narciso",
                                                                                                          de Oscar Wilde.



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       Há pessoas (e são muitas) que tendem a buscar relações com outras, com quem se tem pouquíssimas ou nenhuma afinidade, seja intelectual, de caráter, de projetos ou de estilo de vida. E é justamente pelas diferenças, às vezes irremediáveis entre os parceiros, que essas relações tendem a criar poucas raízes e não resistem ao tempo, às mudanças, ao convívio. Quando chegam ao fim, o caos se instala, a decepção e a frustração são inevitáveis e a dor bloqueia e paralisa.

 

       São aqueles casais que ironicamente separam-se pelas mesmas razões pelas quais um dia se uniram. Pelas suas diferenças de temperamento e de caráter. É a história dos "opostos que se atraem", vivida ao extremo e de maneira cega. Nesse tipo específico de relação (Lago-Narciso), os opostos realmente se atraem (e muito!), mas não combinam.


       Geralmente, uma das partes (Lago), encantada pelas qualidades e atributos da outra (Narciso), faz de tudo para conquistá-la e dessa forma sentir-se até "envaidecida" pelos atributos físicos, intelectuais e pelas habilidades sociais desta. Faz isso sem observar o fato de que, passado o encantamento inicial, vem o dia-a-dia, o que acentua as diferenças, quase sempre bem polarizadas.
 

       Parece que esse tipo de pessoa (Lago) que teima em se meter nessas “enrascadas” afetivas, age irrefletidamente. Só sabe dizer que se sente atraída por parceiros bem diferentes de si (supostamente mais fortes, poderosos, belos e habilidosos). Mas, no fundo, ela insiste nesse padrão de escolhas, pois assim sente-se mais "completa", uma vez que ela e o parceiro "formam uma coisa só", e como sabemos, o todo é maior que a soma das partes. Na verdade, formando um par com ele, ela prova a si mesma e ao olhar dos outros que é “partícipe” das qualidades do parceiro (Narciso), mesmo que muitas vezes ela seja só “espelho” deste. Esquecendo-se de desenvolver e valorizar as suas próprias qualidades e de amar-se em primeiro lugar.

 

       Na verdade, em seu íntimo, essa pessoa chega até mesmo a duvidar se possui qualidades consistentes e se é capaz de se amar (em geral, tem pouco amor-próprio). No fundo, agir como lago-de-Narcisos só serve para afastar de si certas crenças pessoais escondidas (quase inconscientes), mas presentes, de que ela é inapta, incompleta, imperfeita etc. Estar com o outro, dessa forma, evita o extremo incômodo de sentir-se sozinha. De fato, esse tipo de pessoa odeia ficar sozinha justamente por isso. Odeia a angústia de encontrar-se consigo mesma. Prefere fugir dessa sensação (seus monstros interiores) e da necessária luta diária de superar estas crenças. Ocorre que, esquivando-se delas, perde a oportunidade de perceber também que a solução dos seus problemas afetivos passa justamente por aprender a ir além de suas supostas falhas e incapacidades (muitas vezes irreais, imaginárias ou supervalorizadas), reinventar-se a cada instante da vida, e responsabilizar-se por sua própria felicidade. Em outras palavras, bastar-se.

 

      É claro que toda empreitada afetiva feita dessa forma, tende a ter conseqüências terríveis para a auto-estima. O seu ciúme, fruto daquela insegurança citada acima, mas também o seu apego e a sua dependência dessa relação acabam por implodir o próprio relacionamento. O término doloroso é muito comum, justamente porque já começou errado. A dor da “perda” (se é que um dia se “possuiu” o outro) e, principalmente, a sensação de impotência e de desamparo acabam por “confirmar” no íntimo daquela pessoa-Lago, aquelas crenças distorcidas de inaptidão, de incapacidade, de desvalia, realimentando o ciclo. Por isso, é muito comum também, que num processo de rompimento de uma relação assim, seja justamente a pessoa-Lago a que mais insista em continuar, em reatar o relacionamento, em "lutar" por ele, passando inclusive por uma escalada de humilhações terríveis, para "salvar" o que já tinha um fim previsível. E o faz sem sequer perguntar a si mesma se realmente valeria a pena continuar ao lado de alguém tão diferente.

       Ao final, consegue-se justamente o que mais se tentou evitar. Mas o pior é que, em geral, essa pessoa quando se “recupera” de um rompimento, passa a acreditar ainda mais fortemente que precisa de um outro (e provavelmente será um outro "Narciso") para não se sentir novamente um lixo. Pula de relação pra relação, na vã expectativa de  “curar” uma paixão com outra. E assim, aceita facilmente parceiros e relações “meia boca”, nivelando cada vez mais por baixo tanto a qualidade da relação quanto a si mesma. E acaba por posicionar-se novamente no palco de sua própria e única existência, como o lago... coadjuvante de Narciso.




                                                                                                             Tulio Peixoto
                                                                                   tulio@psicoclinicamanaus.com.br
 


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