Uma leitura do filme "A Vida É Bela" sob a ótica existencial de Viktor Frankl

 

*Gustavo Alvarenga Oliveira Santos

 

 

A existência autêntica se caracteriza por uma abertura ao mundo de forma que toda a experiência torne-se em potencial significativa para o indivíduo que a vive. Essa forma de existir faz com que a pessoa se atualize perante as novas situações colocadas a ele pelas contingências mundanas, lançando-se num projeto de vida que se concretiza na ação no mundo.

 

Para que o indivíduo se lance desta maneira no mar incerto da existência é necessário que este lançamento tenha um sentido, não como uma força superior que tomaria conta de sua alma e o impulsionasse a viver, mas da necessidade inerente à condição humana no universo de se criar a todo momento. Assim o ator principal de A Vida é Bela, se posiciona perante ao mundo demonstrando infinitas possibilidades de agir, de criar, de se experimentar frente as situações mais diversas. Dando sentido às situações aparentemente mais banais, enriquecendo o acaso, atribuindo-lhe um valor transcendental.

 

Durante o filme vemos claramente como os sentidos podem ser criados em relação às situações mais diversas, nunca importando a coisa ou o fato em-si, mas a relação que estabeleço com ela, e como este constitui o cerne da liberdade humana perante o mundo, o lugar onde o ser pode se realizar em seus projetos. "Maria" responde às circunstâncias já prontamente criadas, ao chapéu outrora roubado e devolvido, à chave, aos minutos que lhe faltam para o sorvete, o ator brinca com o acaso, enchendo-o de sentido gerando no filme um humor que é próprio desta peculiaridade da existência humana.

 

Desta maneira o protagonista conquista a mulher de seus sonhos, consegue sua livraria tão sonhada, trabalha como garçom, embora soubesse apenas cozinhar um prato. Brinca com as circunstâncias que a ele aparecem arriscando e aparecendo nestas como forma de atingir seus objetivos. Faz-se notório como a abertura desta pessoa às diversas possibilidades de agir e fazer-se conquista o coração de Dora, que aprisionada até então pelos moldes da sociedade aristocrata viu neste um bom motivo para dedicar a sua vida.

Desta união nasce Josué que aprendendo com o pai a brincar com as circunstâncias, suporta quase que como uma brincadeira o terror do campo de concentração. Seu pai fez com que ele pensasse que aquele cenário não era nada além do que um jogo em que os vencedores ganhariam um tanque de guerra. Em cada nova situação novos elementos do jogo eram criados, em cada nova guidoejosue2circunstância o mesmo era aprimorado, ora deveria se esconder, ora esperar, e em determinado momento o silêncio era necessário. Assim o protagonista dava a criança a possibilidade de dar um sentido àquilo tudo pois o projeto de ganhar o tanque de guerra aparece-lhe como possibilidade inerente a cada situação vivida. Viktor Frankl nos fala no decorrer de sua obra de como o sentido de vida salvava vidas nos campos de concentração, o sentido caracteriza-se por um poder ser, um ir além da situação imediata, dando sentido a cada momento novo da experiência com vistas a um ideal futuro.

 

A vida deve ser respondida vivendo-a. O vazio existencial se dá quando o indivíduo não encontra um propósito para o qual possa viver e vive este, de forma que os momentos da existência, não importando sua adversidade, não são vividos em relação a uma meta a um fim a ser cumprido. Josué tinha este fim em vista quando aceitou a brincadeira. Cada momento do jogo, cada ponto obtido aproximavam-no do tão sonhado tanque de guerra de verdade. Tinha algo para o qual pudesse dedicar aqueles momentos no campo de concentração que de outro modo, sem este propósito inerente, tornariam-se impossíveis de suportar. O pai também tinha essa meta em vista, a vida a três, sua esposa, seu filho, constituíam um bom motivo para o qual pudesse se arriscar, perdendo inclusive sua própria vida. Para Frankl, é esta vontade de sentido, que todos nós temos quando buscamos algo para o qual ou para quem podemos dedicar a existência, é que move, orienta e impulsiona a vida tendo em vista um fim.

 

 

As neuroses surgem desta carência de sentido para a existência. O médico alemão tivera insônia por não conseguir resolver decifrar uma charada, levando o protagonista a perplexidade, pois enfrentava situação bem mais adversa e se pudéssemos dizer desta maneira "não sofria tanto". Não importa portanto a contingência, sofrimento, prazer ou dor, o que importa é o sentido que damos a isto tudo, e nossa liberdade é esta de dar sentido ao mundo não importando seu caráter adverso, assim ganhamos em responsabilidade pela vida e ela torna-se por si só significativa.

 

A vida do protagonista acaba por terminar no arbítrio dos guardas. Seu filho e sua mulher, entretanto, salvaram-se desse destino, acreditando no jogo. Inventando olhares o protagonista se põe na posição de quem dá a vida. E o que é existir? Não é um doar constante da existência em sua relação com a morte? Talvez caiba aqui a célebre frase de Frankl "Quem não tem para que morrer, não merece viver". Não importa o sofrimento e o prazer. O que importa é que a vida tenha um sentido. A vida é bela, quando esta se torna significativa. Assim uma fábula pode ser construída, até mesmo dentro de um campo de concentração.


 

*Gustavo Alvarenga Oliveira Santos
Aluno do 8º período do curso de Psicologia do Unicentro Newton Paiva
Belo Horizonte - MG

Retirado do site Existencialismo.org.br

 

 

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